Esculpidas por Kracjberg, em prol da natureza

Esculturas em Nova Viçosa. Foto do próprio Krajcberg.

 

Grandes monumentos que não só atraem, renovam. Das incessantes esculturas, uma profusão de sensações. Remetem ao deslumbre, logo de cara. Depois, aspiram a dor, revolta, impotência. Está bem, ao profundo encantamento. Emoções e sabores se emancipam na observação das fotografias aide-mémoire expostas em livros de arte e sob paredes alvas de museus, como foi visto na OCA-SP, em comemoração aos 60 anos do MAM. Retratos das destroçadas florestas brasileiras, registrados pelo perene homem de legado nervoso que, pela incansável ideologia, continuamente solidificada, aos 87 anos, não mais precisa gritar. Os ecos incomodam sozinhos, reflexo de sua obra, da trajetória, da angústia, da história, tão-somente da realidade. Frans Kracjberg, o judeu polonês naturalizado brasileiro, não chegou aqui à toa.

Do que vale o invólucro sem o alimento que o sustente? Um conteúdo que não se materializa somente na produção artística, tange Kracjberg como sustância, mas que não faz da fome inacabada.  “Por meio de uma poética-testemunho, a natureza torna-se um projeto estético. Desta atitude artística, um ato revolucionário e pioneiro. A criação plástica de Kracjberg refaz, com a natureza destruída, uma arte e um grito, sem panfletarismo, planetário sobre a sobrevivência de todos nós, e isto quer dizer: o futuro do mundo através da realidade de hoje”, afirma Paulo Darzé, 53, marchand há 25 anos e único representante do artista em Salvador.

Krajcberg no Parque do Ibirapuera, SP, em entrevista para Claudio Leal, do Terra Magazine.

Ávidos ou não às causas ambientais, os olhos minimamente sensíveis dividem com Frans Kracjberg a indignação pela devastação das verdes matas marrons. Justino Marinho, 59, artista plástico e crítico de arte, confirma a necessidade do artista no querer que suas obras sejam vistas com o olhar de possibilidades de renascimentos. “Cada obra de um artista como Frans Kracjberg funciona como uma frase, e essas frases, depois de reunidas, formam uma longa história sobre a batalha travada entre o homem racional e o irracional para a sobrevivência da terra”.

No Manifesto do Rio Negro, formulado em parceria com Pierre Restany e Sepp Baendereck, datado em 3 de agosto de 1978, o espelho do ideal do artista, a concepção naturalista que, nele, se concretiza por troncos colhidos nas queimadas: “Essa opção não é somente crítica, não se limita a exprimir o medo do homem diante do perigo que a natureza enfrenta pelo excesso de civilização industrial e urbana. Ela traduz o advento de um estado global da percepção, a passagem individual para a consciência planetária”. Dentre tantas e tamanhas frases de livros a ele dedicados, uma chama atenção, de maneira um tanto cansada pela árdua tentativa de despertar a disciplina da consciência clamada: “Por que o homem destrói as riquezas naturais quando ele sabe que o planeta se consome e que sem elas sua própria vida será impossível?” (In: Espaço Cultural Frans Kracjberg, 2003, p.45).

Metalinguagem própria


Usa a natureza para traduzi-la de forma particular. Um não à arte pela arte. Defensor da arte engajada, aquela em que a percepção única do realizador é maior do que ele próprio. Maior do que Kracjberg? Um equilíbrio, talvez. A dor pela
perda da família entre os milhões de vítimas do Holocausto, em 1945, parece se confortar na vida que brota da terra. Um aconchego. A descoberta da natureza na fazenda Monte Alegre (PR) o reavivou, o contato tornou-se próximo em Cata Branca (MG) e íntimo em Nova Viçosa (BA), algumas de suas moradas.

No percurso, entre tantos entraves, atentou aos indícios da missão, não se absteve e caminha sem parar. “Kracjberg é obsessivo com o seu trabalho. Sua força é imensa, incrível. A coragem de se manter no isolamento, na angústia, de não deixar que a madeira se acabe, de transformá-la em obra, esse poder é só dele”, descreve Justino Marinho. Mensagens de fúria e lamentação emancipadas e redesenhadas por Kracjberg, acolhidas por quem sabe o que o move e o sustenta.

°°Matéria escrita há três anos, para a revista Conceito AV.

OBS: Até 5 de junho de 2011, Kracjberg comemora seus 90 anos com exposição no Palacete das Artes, em Salvador. Entrada gratuita. Não perca, não!

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— Genaro de Carvalho, pós-expo.

Não só uma grande e merecida retrospectiva, a oportunidade de locar à luz dos olhos da nova geração o múltiplo e inconfundível fazer artístico de Genaro de Carvalho. Foi este um dos objetivos dos organizadores, em que se incluíram Nair de Carvalho, na organização geral; realização da Secult, através da Dimus/Ipac; e curadoria de Alejandra Muñoz. Colhemos o belo texto de Alejandra para sintetizar o que foi a exposição  Genaro de Carvalho – de Memória: uma Retrospectiva, que esteve no Museu de Arte da Bahia de 3 de janeiro a 13 de fevereiro. Faz bem se servir como uma pontinha de intimidade para quem não pôde estar lá para prestigiar o colorido, as formas, a alegria e a leveza desse espelho do modernismo, Genaro. Boa leitura! 


Genaro foi um grafiteiro reprimido. Não? Feche os olhos e tente imaginar, na Salvador de 1950, alguém com 22 anos, recém-chegado de Paris, e um muro com 44 metros de extensão no hotel mais chique da cidade. Agora, abra os olhos e olhe para o mural do Hotel da Bahia e imagine o seu hall cheio de plantas tropcais pintadas; hoje, infelizmente perdidas.

Entre a precocidade artística e a ausência prematura, Genaro deixou um legado difícil de definir ou classificar. É possível que a maioria das pessoas que tenham alguma referência dele lembrem-se de suas tapeçarias. Genaro, porém, foi um artista abrangente e incansável, exímio pintor, desenhista exigente, talentoso muralista, designer à frente do seu tempo, e, além disso, pioneiro tapeceiro.

Quatro décadas após a sua morte, esta mostra é, antes de tudo, uma homenagem histórica, que busca resgatar a dimensão desse homem e reconhecer o alcance de sua trajetória, quase esquecida pelos holofotes espetaculares de nossa cultura cada vez mais deslumbrada com aparência efêmeras. Mas é também uma viagem lúdica e sensual a seu universo onírico, que implica uma decupagem do olhar, transcedendo a camada mais superficial do reconhecível para se aproximar do intangível.

Como um pássaro solitário, Genaro transita entre diferentes suportes e linguagens. Enigmático, quase metafísico, vai construindo um espaço sem ilusionismos que se alimenta de elementos simples, linhas, cores planas, densas, sem veladuras, mantendo a vigência de um mundo interior que resiste ao embate do anedótico e do contingente.

Desde uma perspectiva crítica, coma permanente companhia e o carinho de Nair, identificamos temas e momentos do percurso artístico que permitem uma aproximação à produção de Genaro. Foi inevitável resistir ao mergulho no seu processo criativo, mas nos esquivamos de uma leitura cronológica que reduzisse  sua obra a um fazer sequencial, problema recorrente nas retrospectivas deste tipo.

A espuma das suas primeiras marinas respingam fora do bastidor com a fartura própria de quem tenta fazer o óleo falar além da representação e da narrativa da imagem figurativa mais imediata. Essa materialidade eloquente das tintas sobre a tela contém uma energia que se canalizará, primeiro, por murais e colagens, depois, pelas intricadas fibras das tapeçarias para, finalmente, se dissepar pelos poros da pele de suas últimas mulatas.

A paleta de cores,  a fauna e a flora presentes nestas salas delineiam uma cosmogonia genariana que remete ao frescor do olhar infantil, à seduão da intimidade do artista e sua modelo e uma certa baianidade lisérgica, às vésperas da contacultura. Os grafismos de suas estampas, a estrutura das coivaras e a presença ritmada de alguns elementos sugerem uma gramática próxima de ideogramas.

Genaro de Carvalho faria 84 anos neste último novembro, porém, no lugar do saudosismo prefiro imaginar que, enquanto Nair cuida de suas Curita e Gaudira, ele esteja grafitando as asas dos anjos.

Por Alejandra Muñoz – Curadora

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VISIO. Mote colaborativo faz arte visual.

De cada um dos 24, linguagens, conceitos. O projeto Visio. prõpoe que criações fragmentadas, unitárias, gerem a arte de um coletivo. Ou seja, o ambiente é de todos, dos artistas, dos visitantes. Mais uma etapa do Visio, a I Mostra Itinerante de Artes Visuais, foi iniciada ontem, quarta-feira (6), na Pizzicato Pizzeria e lá permanece até o dia 20 de outubro. Uma combinação de desenhos, pinturas, fotografias, instalações e vídeos, confeccionados por artistas veteranos e novatos, sem dispensar a participação do público. Na entrevista abaixo, Andrea May, idealizadora do conceito, da curadoria e da criação, nos conta mais um poucos da construção da exposição e das motivações do VISIO. Vamos ao papo!

♣ A Visio. tem dois meses de produção coletiva em artes visuais e já realiza a segunda exposição? Quem participa do coletivo e qual o objetivo maior? Renovação de linguagem, de estética?

O VISIO. Atelier Coletivo começou em setembro e está indo para a sua terceira edição no ICBA.  Paralelamente, articulamos ações diversas como foi o caso da I Mostra Itinerante de Artes Visuais VISIO, em cartaz na galeria da Pizzicato, um espaço novo e bem intencionado com as artes em geral. Desta forma, buscando espaços e alternativas para exposições e eventos colaborativos, estamos sedimentando ainda mais o terreno para nossas experiências e criações sejam elas individuais ou em grupo. É uma das metas prioritárias deste projeto.  A participação é rotativa, alguns artistas podem ser considerados residentes e os convidados que se renovam a cada edição.

Nesta segunda edição, 24 artistas compõem a exposição. Qual critério une a escolha destes artistas e o que eles, em geral, têm de peculiaridade para serem indispensáveis?

Sim, foram 24 de linguagens diversas. Essa é a tônica. Ilustradores, fotógrafos, videoartistas, designers, pintores, performers juntos formando um só núcleo, uma bolha que se alimenta de inspiração para produzir ou apenas reproduzir durante uma tarde inteira, sob olhares curiosos e instigantes. Uma situação nova para muitos participantes que são selecionados pela estética da livre interpretação.

♣ A exposição parte de um conceito especifico ou é um espaço coletivo de criações individuais?

O conceito é colidir idéias e estilos, gerar possibilidades, podendo estas resultarem em obras isoladas ou coletivas. E, caso não seja neste dia, podem vir em parcerias futuras.

♣ Dentre os 24 nomes, há algum que você queira destacar?

Ahhh, difícl citar alguém que se destaque. Lógico que tem os com mais experiência: Anita Dominoni, Bruno Marcello, Iansã Negrão, Silvis; e os que estão começando, descobrindo novos caminhos como Nely Oliveira, Tuti Minervino, Flávia Bomfim.

♣. E qual a próxima etapa do Visio?

Realizar a terceira edição, dia 06 de novembro e quem sabe circular por aí. Recebemos um convite para uma edição no Recôncavo Baiano, estamos conversando. Será maravilhoso se pudermos travar esse diálogo visual com artistas e comunidades diferentes. Novidades em breve no nosso blog: http://visioponto.blogspot.com/

 

°°Pizzaria Pizzicato Alameda das Carolinas, 9B, Caminho das Árvores (próximo à rua do canal) / tel: 3358.0172

 

 

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Memórias lusobrasileiras inspiram arte em AC

Painés em stencil, em A Busca, de AC

Como um brasileiro autêntico, a árvore genealógica de Anderson Cunha, o soteropolitano “AC”, tem imbricações bem articuladas entre África, Brasil e Portugal. Em um processo de arte e resgate familiar, AC confeccionou “A Busca – Residência Artística itinerante em Portugal”, em cartaz de 1° a 31 de outubro no Convento de São Francisco, em Montemor-o-Novo, Portugal. A vernissage recebeu elogios do tipo “Baita fiche, porreira pá!… Muito Giro”, brinca.  AC chegou lá em 6 de outubro, a convite da Associação Cultural Oficinas do Convento, em Montemor-o-Novo, com incentivo da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Vamos à entrevista?

 

♣ Já havia estado em Portugal? Se não, encontrou o que imaginava?

Está é a 1ª vez, que venho a Portugal e encontrei, de certa maneira, o que procurava.  Mas a minha busca ser um pouco densa, pois é um processo de análise e cruzamento de dados ligados às origens de minha família, o que requer uma continuação. O que mais me surpreende em Portugal é o povo português e sua cultura, que, de certa maneira, lembra muito a cultura nordestina, regionalista rural, a ligação deles à tradição, seja na culinária, na preservação de sua secular cultura e, sobretudo, na arquitetura, que  carrega em si muito da cultura moura (árabe).

A exposição ‘A Busca’ parece ter sido um processo bem íntimo, que mexeu com lembranças, pessoas, lugares. Isto foi mais incômodo ou prazeroso? O processo de criação foi desenvolvido aí em Portugal?

Sim, realmente tem sido um processo extremamente íntimo, iniciado em 2008 após o assassinato do meu único irmão. Neste mesmo ano apresento na exposição Original Vandal Style, da 071 Crew, na galeria Acbeu, um trabalho de pintura e colagem de fotos e documentos antigos sobre janelas de vidro encontradas no Corredor da Vitória, concebidas especialmente para a exposição. De lá para cá venho desenvolvendo as ideias e os trabalhos.  Entretanto, a série apresentada aqui, em Portugal, foi toda desenvolvida durante esta minha estadia a partir imagens que obtive no Brasil.

Em meio à sua história, quais aspectos foram levados em conta para compor o enredo da criação, quais os personagens e que mensagem quis transmitir em seus posteres e graffitis?

As histórias contadas por minha mãe sobre as origens de nossa família em Portugal, que fogem para o Brasil por questões políticas, e a maneira como se estabeleceram as tradições preservadas e as rupturas familiares, que foram e tem sido o “mote” de desenvolvimento destes trabalhos. Meus pais faleceram em um curto espaço de tempo, no intervalo de um ano e meio e meu irmão foi brutalmente assassinado. Me vi sozinho, sendo o guardião de uma história que, se não fosse contada e preservada, se perderia, assim como muitas outras que também foram perdidas.

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A Pintura, por Almandrade

Carnacal de Wittgentein (2000), por Almandrade

  

Uma Janela para a Pintura (1997), por Almandrade

 A pintura passou a ser uma forma de restauração da tela. Atrás da superfície branca, onde a mão e o raciocínio vão agir, habitam muitas sombras, formando uma paisagem obscura, que escondem alguns conflitos da visualidade. A tela é como um velho quadro negro, que não é mais negro, é cinza. O giz e o atrito do apagador deixaram nele cicatrizes de inúmeras  escrituras. Assim é a tela, um território com rastros de muitas inscrições. Pintar é enfrentar os fantasmas da pintura, é escavar a densidade de uma superfície que se apresenta branca, na procura de referências para construir um lugar, mesmo que seja um lugar inacabado, para estimular as reflexões do olhar. A pintura renasce de si, deixando aparecer seus sonhos e rugas, revelando dúvidas e imperfeições, dando forma ao invisível. A cor e o traço vibram e se interrogam como atributos de um suporte que abriga a encenação de uma pintura..

♣ Almandrade é Antônio Luiz M. Andrade -  Artista plástico, arquiteto, mestre em desenho urbano, poeta e professor de teoria da arte das oficinas de arte do Museu de Arte Moderna da Bahia

 

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Arte e política se unem na Bienal em época propícia

ARTESENTIDOLINGUAGEMESTÉTICASOCIEDADEDESCONSTRUÇÃOPOLÍTICA 

 

 Em Salvador, ou qualquer outra metrópole, as paisagens urbanas apresentam, aos olhos atentos, um redemoinho de tensões sociais. Com um pouco mais de sagacidade na observação, um painel de interferências artísticas ofuscam e contrabalançam percepções. Que podem te fazer refletir, refutar e reestruturar. É arte, afinal. Desconstrução. Colocaram, certa vez, uma cama no centro dessa cidade. Tinha um homem dormindo, despretensioso e relaxado. Estava em casa. Em volta, as pessoas se atropelavam na correria, apressados. E ele? Continuava a dormir. Bem que poderia ser só uma cama, mas foi lá locada para remeter significados… É, homens, mulheres e crianças se aconchegam nas urbes, muito embora, não relaxem na cama.  

 Cama (2002) é autoria do GIA – Grupo de Intervenção Ambiental. O coletivo é fruto da Escola de Belas Artes da UFBA e suas ações se baseiam em “aleatoriedade, humor e reflexões a respeito da vida cotidiana e suas singularidades”. A combinação desses prérequisitos resulta ações pensadas para sacudir a inércia da massa e soar que sim, existem descompassos sociais. Associações como as de Cama induzem na arquiteta, doutoranda em Urbanismo e professora de História da Arte da UFBA, a uruguaia Alejandra Muñoz, tanto os delírios das inter-relações de Salvador Dalí, como o desafio artístico de enxergar o além no comum. “Não cabe à arte apontar soluções para os problemas sociais, mas incitar a reflexão e mostrar as contradições e os valores de uma sociedade”, define.  

Fonte (1917), ready-mades de Duchamp

Espera Sobre artistas e expectativas, pelo menos nas ideias de Arthur Barrio, os esforços foram para que nada de “pré-fabricado” ou “arquitetônico” surtisse na sua 8° Bienal, bem pudera. Ele se mantinha na tensão da inércia à época da entrevista, convicto de que tudo o que pode fazer é situar o leitor numa dimensão externa ao espaço do evento. Português nato e vivente do Rio de Janeiro, Barrio tem energia antropofágica, que alarma desatinos sociais desde as décadas de 1960 e 1970, com\obras-referências, como Trouxas Ensanguentadas (1969) e Trabalho/Processo 4 dias 4 noites (1970). Barrio, artista dos “resíduos do mundo”, despreza os paralelismos – arte/política, moderno/vanguarda -, crê no gesto político da arte, só. “Penso que hoje essa confluência/des-confluência é um discurso-opinativo ultrapassado. Vivemos isso sim numa grande confusão ou caos, como queira, acho melhor assim”.

Passos à Bienal Há sempre um copo de mar para um homem navegar – A frase, colhida de Invenção do Orfeu, do poeta alagoano Jorge de Lima, pode ser uma quimera, um estímulo generoso à imaginação, um apelo à superação e um mote para criar. Tão por isso é o pré-texto inserido pelos curadores para uma das maiores coletâneas artísticas do mundo. A 29° Bienal Internacional de São Paulo, desde a concepção, mergulha profundamente nesse mar que movimenta significados. Foram dois que a atiraram lá, Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, recifense e mineiro, críticos, pesquisadores e curadores de arte.
As acepções do verso de Jorge Lima são tentações para Moacir e Agnaldo. “A frase oferece a capacidade de navegar, sonhar, produzir, ultrapassar e são muita as camadas, inclusive religiosas, mesmo num terreno limitado, que é o que os artistas fazem”, explica Agnaldo. Para um deleite pleno que começou em 21 de setembro e segue até 12 de novembro, dois co-curadores injetaram mais ar na Bienal: a venezuelana Rina Carvajal e a sul-africana Sarat Maharaj. Outros três ajudaram, tamanha a profundeza trilhada, são os correspondentes Fernando Alvim, Yuko Hasegawa e Chus Martinez.
O verso foi dado. Mas é a entrelinha proposta que liga as criações dos 160 artistas: uma plataforma discursiva que estimulará leituras sagazes da relação entre estética e política. Ou seja, um campo fértil para a arte. “Chamar atenção para a arte é política. Até a arte que se pretende neutra é política. O tema alerta quão complexo é a discussão. A arte fala do mundo e o denuncia, o que não significa uma abordagem explícita, mas fusão entre linguagens”, conta Agnaldo.
Com 59 anos, a Bienal abriu as portas no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, do Parque do Ibirapuera, com pintura, escultura, desenho, gravura, cinema, arquitetura e tudo mais de tecnológico e experimental que compreende a arte contemporânea, seus vídeos-arte e instalações.

 Agnaldo até prefere definir o planejamento como “desenho político”. E olhem que os rabiscos têm cores baianas, percebido pelo nome dos espaços dedicados à “celebração do encontro, bem sagrado e profano”, como clama. São seis Terreiros, com focos de atuação distintos, mas sintonizados de modo a se comportarem como palanque poético. Entre os nomes, tem o “dito, não dito, interdito”, “lembrança e esquecimento”, “o outro, o mesmo”, “a pele do invisível” e “longe daqui, aqui mesmo eu sou a rua”.    

Caetano Veloso usa Parangolé "Seja marginal seja herói", de Oiticica

 Arte?  O espaço público, tão usado por Barrio, também é explorado por graffitis, pichações e performances, como as do Coletivo Osso, de Salvador. No antes, as narrativas dos murais de Diego Rivera, no Palácio Nacional do México, as obras construtivistas de Tatlin, Rodchenko ou El Lissitzky, para a nova sociedade socialista; ou o Projeto de Arte Federal nos Estados Unidos, nos anos 1930, estão entre as obras indicadas por Alejandra Muñoz que tratam a relação entre arte e política em níveis mais explícitos. Ela impõe níveis por considerar que, panfletária ou discreta, toda arte é política, até mesmo as descompromissadas, “uma vez que a decisão de participar ou se omitir em qualquer processo cotidiano já é um ato político”
Em 1960, certos panos coloridos e interligados – espécie de estandartes, capas ou bandeiras – curiosamente necessitavam de movimento para que a arte se tornasse visível. Eram os Parangolés, que Hélio Oiticica desenvolveu admirado pelo ritmo do samba. “O objetivo é dar ao público a chance de deixar de ser público espectador, de fora, para participante na atividade criadora”, descreveu Oiticica, à época.
Em 1970, Inserções em Circuitos Ideológicos, de Cildo Meirelles, se apropriou das garrafas de Coca-Cola, inseriu a expressão “Yankees Go Home” e difundiu no mercado de consumo o maior símbolo norte-americano carregado de subversão. Na pesquisa Ondas do Corpo (1981), de Antonio Manuel, Meirelles comenta que o período não exigia o culto ao objeto, mas a provocação do corpo social. “A arte teria uma função social e teria mais meios de ser densamente consciente. E o papel da indústria é exatamente o contrário disso. Então as anotações sobre o projeto Inserções em Circuitos Ideológicos opunham justamente a arte à indústria”, narrou.  
 

Pós-revolução de 1917, o pintor, escultor e arquiteto ucraniano Vladimir Tatlin, ousou com a construtivista “Torre de Tatlin” (1920)

Política? …Desarticulação da linguagem. Para o arquiteto e artista plástico baiano Almandrade, estando o artista seguro dessa meta, a arte pode atender mais à coletividade que temas políticos desfalecidos de estética criativa e comprometimento histórico. O experimentalismo de Oiticica, as esculturas de Ligia Clark ou o ready made de Michael Duchamp, pioneiros do conceito contemporâneo de instalação, permitiram, a esses artistas, a “decisão do que é arte ou não é, mas sob muita responsabilidade”, diz Almandrade. Dos modos de reutilização de referências históricas “ é que se podem alterar os sentidos e te colocar dentro de certo impacto”, opina.

Retrato de paisagem brasileira (1977) trazia, por exemplo, uma sequencia de cinco papéis fotográficos 18 x 24 cm, todos brancos, sustentado apenas pelo título. “A minha discussão inicial era uma relação com a linguagem visual, que tinha que ter uma legenda”. Mas, a obra foi além das paredes do MAM – BA, onde participava da exposição O sacrifício do sentido, e caiu em repercussão social. “Naquele momento de repressão, aqueles quadradinhos brancos chamavam atenção. Algo coisa que você não pode falar, entendeu? Eu não pensei diretamente isso, mas tinha a ver”, conta Almandrade, o autor.
Lógica do consumo, desenvolvimento sustentável, qualidade de vida, justiça social, políticas públicas e corrupção são abordagens que, segundo Alejandra, aguçam as criações desta era contemporânea. E, “esse eixo é o que espreme de modo mais abrangente a relação entre arte e política”, relata. Neles se confrontam valores artísticos, formas de relação com o público, noções de efemeridade, contextualização, conceitualismo e autoria. Entre os nós e desembaraços da linguagem, estética, conceito e história, para Muñoz, ainda é pertinente perguntar: “O que é arte hoje?”
 
Por Tatiana Ma. Dourado. Esta matéria foi veiculada na edição de outubro do Jornal A Relíquia. Confiram todas as matérias no site.  

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Pelos Caminhos de Salvador

Praça da Sé

Se Salvador foi o maior centro urbano ao Sul do equador no século XVI – época em que foi coroada a capital do Brasil (1549-1763) -, compreende-se que os 25 mil habitantes devem ter circulado por paisagens bem diferentes que as da agora, tempo em que vivemos o ápice da massificação imobiliária e prevemos o verdadeiro colapso do trânsito.

Paisagens cordiais, ruas de paralelepípedos, construções coloniais – uns, com eira e beira, outros, sem eles, como de costume -, as tendências do barroco e do rococó na arquitetura religiosa, tudo isto recorte do cotidiano da história da cidade retratados na exposição permanente Pelos Caminhos de Salvador, no Museu Tempostal, Pelourinho.  Lá, o público tem acesso às 45 mil fotografias e postais fazem parte dos 40 anos de coleção do sergipano Antonio Marcelino de Nascimento (1929-2006).  Os bairros do Campo Grande, Barra e o Centro Histórico, obviamente, são agraciados  com um bom número de recordação. Tudo por imagem! Vale a pena!

Rua Carlos Gomes com vista para Baía de Todos os Santos e Praça Castro Alves

O acervo foi adquirido pelo Governo do Estado da Bahia em 1995 e, dois anos após, foi fundado o Museu Tempostal, que, aliás, fora batizado pelo próprio colecionador com esse nome. O espaço, administrado pela Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Dimus/IPAC), autarquia vinculada a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, apresenta, atualmente, três mostras de longa duração: “Bahia – Litoral e Sertão”, “Arquitetura religiosa na Bahia” e “Pelos caminhos de Salvador”.

Visitação (gratuita): terça a sexta, de 10 às 18h. Finais de semana e feriados, das 13 às 17h.
End.: Rua Gregório de Matos, 33, Pelourinho, Salvador
Tel.: (71) 3117- 6382

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