— Genaro de Carvalho, pós-expo.

Não só uma grande e merecida retrospectiva, a oportunidade de locar à luz dos olhos da nova geração o múltiplo e inconfundível fazer artístico de Genaro de Carvalho. Foi este um dos objetivos dos organizadores, em que se incluíram Nair de Carvalho, na organização geral; realização da Secult, através da Dimus/Ipac; e curadoria de Alejandra Muñoz. Colhemos o belo texto de Alejandra para sintetizar o que foi a exposição  Genaro de Carvalho – de Memória: uma Retrospectiva, que esteve no Museu de Arte da Bahia de 3 de janeiro a 13 de fevereiro. Faz bem se servir como uma pontinha de intimidade para quem não pôde estar lá para prestigiar o colorido, as formas, a alegria e a leveza desse espelho do modernismo, Genaro. Boa leitura! 


Genaro foi um grafiteiro reprimido. Não? Feche os olhos e tente imaginar, na Salvador de 1950, alguém com 22 anos, recém-chegado de Paris, e um muro com 44 metros de extensão no hotel mais chique da cidade. Agora, abra os olhos e olhe para o mural do Hotel da Bahia e imagine o seu hall cheio de plantas tropcais pintadas; hoje, infelizmente perdidas.

Entre a precocidade artística e a ausência prematura, Genaro deixou um legado difícil de definir ou classificar. É possível que a maioria das pessoas que tenham alguma referência dele lembrem-se de suas tapeçarias. Genaro, porém, foi um artista abrangente e incansável, exímio pintor, desenhista exigente, talentoso muralista, designer à frente do seu tempo, e, além disso, pioneiro tapeceiro.

Quatro décadas após a sua morte, esta mostra é, antes de tudo, uma homenagem histórica, que busca resgatar a dimensão desse homem e reconhecer o alcance de sua trajetória, quase esquecida pelos holofotes espetaculares de nossa cultura cada vez mais deslumbrada com aparência efêmeras. Mas é também uma viagem lúdica e sensual a seu universo onírico, que implica uma decupagem do olhar, transcedendo a camada mais superficial do reconhecível para se aproximar do intangível.

Como um pássaro solitário, Genaro transita entre diferentes suportes e linguagens. Enigmático, quase metafísico, vai construindo um espaço sem ilusionismos que se alimenta de elementos simples, linhas, cores planas, densas, sem veladuras, mantendo a vigência de um mundo interior que resiste ao embate do anedótico e do contingente.

Desde uma perspectiva crítica, coma permanente companhia e o carinho de Nair, identificamos temas e momentos do percurso artístico que permitem uma aproximação à produção de Genaro. Foi inevitável resistir ao mergulho no seu processo criativo, mas nos esquivamos de uma leitura cronológica que reduzisse  sua obra a um fazer sequencial, problema recorrente nas retrospectivas deste tipo.

A espuma das suas primeiras marinas respingam fora do bastidor com a fartura própria de quem tenta fazer o óleo falar além da representação e da narrativa da imagem figurativa mais imediata. Essa materialidade eloquente das tintas sobre a tela contém uma energia que se canalizará, primeiro, por murais e colagens, depois, pelas intricadas fibras das tapeçarias para, finalmente, se dissepar pelos poros da pele de suas últimas mulatas.

A paleta de cores,  a fauna e a flora presentes nestas salas delineiam uma cosmogonia genariana que remete ao frescor do olhar infantil, à seduão da intimidade do artista e sua modelo e uma certa baianidade lisérgica, às vésperas da contacultura. Os grafismos de suas estampas, a estrutura das coivaras e a presença ritmada de alguns elementos sugerem uma gramática próxima de ideogramas.

Genaro de Carvalho faria 84 anos neste último novembro, porém, no lugar do saudosismo prefiro imaginar que, enquanto Nair cuida de suas Curita e Gaudira, ele esteja grafitando as asas dos anjos.

Por Alejandra Muñoz – Curadora

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